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segunda-feira, 29 de agosto de 2016

HARVARD ATERRISA NO URBANISMO DO DF

HARVARD ATERRISA NO URBANISMO DO DF
Urb. Jorge Guilherme Francisconi, MRP, PhD


A Secretaria de Gestão do Território e Habitação do GDF (SEGETH) e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB estão se reunindo com professores da Graduate School of Design, da Universidade de Harvard. Talvez tratando do planejamento urbano e metropolitano do Distrito Federal, o que não é tarefa simples. Por isso, a iniciativa merece o apoio de todos.
Charles Waldeim, que dirige o Escritório de Urbanização da Graduate School de Harvard, conduz a equipe de Harvard. Ele é um expoente do Landscape Urbanism -  nova corrente do planejamento urbano, cujos fundamentos desconhecia e que encontrei na Wikipédia.
O Landscape Urbanism, ou Urbanismo da Paisagem (tradução livre), surgiu nos anos 90 para substituir o new urbanism [novo urbanismo]. Seu pressuposto é que o planejamento da paisagem é melhor que a morfologia de edificações para organizar cidades. Por isso, não segue fundamentos do planejamento científico e da arquitetura moderna, nem do planejamento urbano integrado interdisciplinar. Projetos do Landscape Urbanism exigem conhecimentos da história da ciência, geografia política e econômica, sociologia e arquitetura e podem ser vistos em Nova York, Toronto e outras.
Já a SEGETH, antes SEDUMA e SEDHAB, pratica o urbanismo pontual e morfológico, sem propostas de gestão estratégica ou de parâmetros mínimos para integração das atividades e serviços na metrópole ou cidades do DF. Não há projetos para Plano Piloto, que abriga atividades exclusivas de uma capital nacional de caráter monumental, não no sentido de ostentação, mas no sentido de expressão palpável, por assim dizer, consciente, daquilo que vale e significa [Lucio Costa]. Onde o monumental satisfaz a eterna demanda do povo pela transformação de suas forças coletivas em símbolos [Louis Kahn].
Também falta um planejamento para a metrópole que ocupa o território DF. Suas cidades tem população e peso eleitoral maior que o Plano Piloto, e seus planos urbanos consolidam condições existentes e algumas vocações.
As expectativas por um planejamento urbano qualificado cresceram quando o Governador Rollemberg entregou a SEGETH ao IAB/DF. em especial para área do Plano Piloto expandido. Aqui caberia usar os ingredientes de Lucio Costa ao inventar a civitas, mas nada aconteceu. O grupo de Harvard poderá gerar sinergias, estratégias e proposições, na esperança de que não se repita a frustração que houve após o I Seminário Internacional sobre A Proteção ao Plano Piloto de Brasília no Contexto Metropolitano, que TERRACAP/GDF e IPHAN promoveram  em 2012.
A FAU/UnB, que também participa do grupo, adota outros conceitos. Nos anos 60 à 80 abrigava duas correntes de pensamento. Por um lado, o  programa interdisciplinar de mestrado adotava preceitos do planejamento integrado. No melhor estilo dos anos 60, a prática do planejamento era basicamente utilizada para previsão de impactos e avaliação de programas, a partir da fé no método cientifico, que as ciências sociais adotaram após a II Grande Guerra.
Em contrapartida, a linha de pensamento liderada por Edgar Graeff entendia que havia uma campanha maliciosa e persistente contra o arquiteto de talento, o criador singular, sob o pretexto de que acabou o tempo do profissional liberal, de que a sociedade não se interessa pelo arquiteto “prima dona”, de que a hora é das equipes interdisciplinares, a vez é do coletivo...
Este dualismo perdeu importância a partir de 1984, quando mudou o cenário político e surgiu qualificado grupo de professores da FAU, cujos estudos sobre as dimensões morfológicas do processo de urbanização do Distrito Federal seguiam a Teoria da Sintaxe Espacial, criada pelo literato Bill Hillier.
No decorrer do tempo, a aposentadoria de professores de várias correntes abriu espaço para o urbanismo habermasiano adotado na FAU/UnB. Esta linha de pensamento entende que decisões e ações de planejamento devem ser definidas pelo diálogo e comunicação racional, mediante entendimento mútuo, em lugar do uso de princípios de lógica e saber empírico formulados de forma cientifica. Para Habermas, pragmatismo e racionalidade na comunicação racional convergem quando utilizadas para guiar a ação do planejadores. A principal responsabilidade do planejador é de escutar as descrições da população e apoiar na obtenção de consenso entre diferentes pontos de vista. Em vez de oferecer liderança tecnocrática, o planejador passa a ser um experiente aprendiz, cuja principal função é ter sensibilidade para construir convergências e impedir que grupos de interesse dominem o planejamento [Fainstein].
Nas últimas décadas, a gestão e planejamento urbano nacional foram influenciados pelo pensamento de Habermas, com pitadas do discurso competente de Marilena Chauí e de processo participativo gerado no PT. No cenário político, desejos e expectativas da população passaram a ser mais influentes, mas ainda sem vencer o dominante sistema patrimonialista .
Os fundamentos habermasianos têm sido questionados porquê impedem a realização de grandes planos, como aqueles exigidos pelo planejamento metropolitano. Além disso, o foco do planejamento comunicacional passa a ser o planejador, sua atividade e suas qualidades, e não aquilo que deve ser feito em cidades e regiões. Há também o paradoxo de que, quando o planejador comunicacional - não o participativo, se auto-intitula moralmente desinteressado, sua atitude se assemelha àquela dos tecnocratas que critica.
A convergência de esforços da UnB com a SEGETH pode aperfeiçoar a atividade urbanística e a arquitetura que temos no DF. O fato de Harvard  aterrissar no terrapleno do Plano Piloto é uma ótima noticia. A expectativa é sobre o que será produzido para aprimorar a paisagem urbano-ambiental do DF, tanto no Plano Piloto como nas demais cidades da metrópole. Por ora só nos resta aguardar para conhecer o que será produzido.

jgf – 26/agosto/2016

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